Ageuniara

Pesquisa da Unesp quantifica compostos poluentes gerados pela cana

Por: TÁRCIO MINTO FABRÍCIO

09/11/2007

Uma pesquisa divulgada recentemente demonstra os efeitos do cultivo da cana-de-açucar na produção e emissão de compostos de nitrogênio no ambiente. O estudo foi realizado pela pesquisadora da Unesp de Araraquara Cristine de Mello Dias Machado.

Os resultados obtidos pela pesquisadora foram apresentados em sua tese de doutorado intitulada "Compostos nitrogenados reativos e ozônio na atmosfera de uma região produtora de álcool combustível na região central do Estado de São Paulo".

O trabalho teve como objetivo avaliar a relação entre a cultura canavieira e a quantidade de óxidos de nitrogênio e de amônia liberados na atmosfera. Esses dois compostos de nitrogênio têm a característica de ser altamente reagentes com outras substâncias. Cristine explica que os óxidos de nitrogênio dão orígem ao ácido nítrico responsável, junto ao ácido sulfúrico formado pelos compostos de enxofre, pela formação da chuva ácida.

Além disso, os óxidos de nitrogênio são responsáveis pela formação de grandes quantidades de ozônio. Esse composto pode causar danos a várias espécies de plantas. “O ozônio é formado na atmosfera pelos óxidos de nitrogênio e é um composto altamente oxidante que causa desfolhamento de várias espécies”, explica Cristine. Além disso, esse composto pode trazer prejuízos à saúde humana. “Por ser oxidante ele causa danos no sistema respiratório”, conclui.

No caso da amônia, a pesquisadora comenta que o interesse do estudo surgiu pela capacidade do composto em neutralizar a acidez causada pela atuação dos óxidos de nitrogênio. A amônia em sua forma gasosa é alcalina e por isso tem essa propriedade.

As amostras de ar utilizadas na pesquisa foram coletadas em épocas distintas do ano, durante a safra e posteriormente durante a entressafra da cana-de-açucar. Os resultados apontaram que na época de safra, quando os canaviais são queimados, a quantidade desses compostos é elevada. Esses dados revelam uma relação direta entre o manejo das culturas de cana e a presença dos óxidos de nitrogênio na atmosfera.

No caso da amônia, as quantidades gaseificadas presentes no ar se mantiveram constantes ao longo de todo o ano. Cristine explica que isso acontece porque a maior parte da amônia liberada provavelmente é resultado da utilização em larga escala dos fertilizantes nitrogenados.

Na coleta de amostras do ar foram utilizadas técnicas indiretas de fixação desses compostos para posterior mensuração no laboratório. Como o armazenamento do ar é difícil, a pesquisadora utilizou produtos que reagem com as substâncias investigadas gerando compostos secundários. Posteriormente, esses compostos eram mensurados e indiretamente revelavam a quantidade dos elementos de interesse no estudo.

Após a obtenção desse material, as amostras foram submetidas a um espectrofotômetro, que mediu as quantidades exatas desses materiais. A espectrofotometria compara a radiação absorvida ou transmitida por uma solução que contém uma quantidade desconhecida de uma substância com uma quantidade conhecida dessa mesma substância.

Cristine comenta que os compostos reagentes do nitrogênio tendem a sofrer um aumento na região, devido à expansão do cultivo de cana-de-açucar. Ela explica que mesmo com o final das queimadas esses compostos devem continuar sendo liberados pelo grande uso dos fertilizantes. Nesse sentido, o aspecto mais negativo seria a transformação de grandes quantidades de nitrogênio inerte em compostos altamente reagentes, como os óxidos e a amônia. “Quanto mais plantações e quanto mais fertilizantes forem aplicados, maior vai ser o dano ao meio ambiente”, adverte Cristine Machado.

A pesquisadora afirma também que a utilização em larga escala desses fertilizantes pode elevar em muito a acidez dos solos da região. Outro problema seria o carreamento desses materiais para os rios, causando desequilíbrios ecológicos sérios com prejuízos à vida aqüática.

Cristine acredita que o etanol é uma alternativa energética interessante, entretanto argumenta que é necessário um maior conhecimento dos ciclos naturais envolvidos e o desenvolvimento de práticas mais racionais de produção da cana-de-açucar.

A pesquisadora trabalha atualmente com a quantificação de outros compostos de nitrogênio, os nitritos e nitratos, obtidos na mesma série de coletas. Outra etapa do trabalho pretende avaliar esses compostos em outras regiões canavieiras do estado.

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