Ageuniara

Desarmamento e referendo causam discussões

Por: JULIANA FRANCO

23/08/2005

A Campanha Nacional do Desarmamento e o referendo, previsto para o dia 23 de outubro, têm dividido opiniões em todo o Brasil, tanto de delegados e profissionais da área, como da população, que será obrigada se posicionar contra ou a favor o comércio de arma de fogo.

Iniciada no ano de 2004, a campanha é um marco na história do Brasil, no que se refere ao combate à violência e à instituição de uma cultura de paz no país. Até julho de 2005, foram entregues à Polícia Federal e ao Exército um total de 342.303 mil armas, número que não contabiliza ainda o total de armas entregues às polícias estaduais.

Em São Carlos(SP), desde o início da campanha, já foram entregues 757 armas de fogo. Apenas de janeiro de 2005 até o dia 19 de julho do mesmo ano, 327 armas foram entregues à Delegacia Seccional da cidade.

De acordo com Odacir Cezário da Silva, delegado seccional de Polícia de São Carlos, o número de armas entregue é alto, mas ainda existem muitas pessoas que precisam se conscientizar e entregar as armas.

“Até o final de outubro, se houver o apoio da imprensa, acredito que este número só tende a aumentar. Há muitas pessoas com arma em casa que estão indecisas se entregam às autoridades ou não. É preciso uma conscientização maior da população”, observa Cezário.

Com estes números, fica evidente que a campanha está tendo grande repercussão e aceitação da população. De acordo com pesquisas, o índice de redução de acidentes com armas de fogo, em São Paulo foi de 7%.

“Entendo que a campanha de desarmamento praticamente já cumpriu a sua finalidade, pelo menos a queda no número de homicídios em todo o país, é visível", argumenta o delegado.

Para ele se diminui o número de homicídio, cada vida que foi salva com a apreensão de uma arma, a campanha já cumpriu um benefício social."Entendo que a campanha foi útil e continua sendo”, comenta o delegado Cezário.

Além disso, ele afirma que armas mantidas em residências só trazem malefícios. “A pessoa que mantém armas em casa não proporciona benefício para ninguém. A arma dentro de casa pode causar acidente doméstico tendo como conseqüência a morte de alguma pessoa. A pessoa corre o risco de ser furtada ou roubada. Não vejo o motivo de uma pessoa manter uma arma em casa se ela não é policial, não vejo essa necessidade”, observa delegado Cezário.

O delegado acredita que uma pessoa com um pouco mais de instrução, também é contra o porte de arma por pessoas sem experiência. “Uma pessoa que pensa de forma racional, com um nível intelectual mais elevado, nunca pode defender a utilização de arma de fogo por ninguém”, observa.

Cezário também afirma que falta divulgação para a campanha, se fosse feita uma publicidade maior, os resultados seriam melhores. “Teve um final de semana que muita gente entregou as armas, pois a imprensa deu muita ênfase à campanha naquele momento. As pessoas só lembram quando está nos últimos dias do prazo ou quando há divulgação da mídia de forma maciça. A campanha não terminou, é preciso uma maior divulgação. Acredito que metade das armas não foi entregue ainda”, estima Cezário Referendo

A Campanha Nacional do Desarmamento foi prorrogada até outubro, quando será realizado o referendo, previsto para o dia 23. A população irá às urnas, como nas eleições tradicionais e votará contra ou a favor à proibição da venda de armas e munição no país, como prevê um dispositivo do Estatuto do Desarmamento. Essa votação está dividindo a opinião da população e dos profissionais.

De acordo com Fábio Luiz Hernandez Martins, gerente de uma loja de acessórios para carros, a proibição só beneficiará os criminosos. “Sou totalmente contra. O dispositivo do Estatuto do Desarmamento desarmará a população e beneficiará os bandidos, pois eles não compram armas de forma legal. Além disso, a polícia do nosso país não é eficaz para proteger a população”, comenta Fábio.

Sandra Maria, vendedora, é a favor da proibição da venda de armas de fogo. “Sou a favor da proibição da venda de arma. Esta é a única maneira de prevenir acidentes com crianças que muitas vezes se matam. Fatos como este ocorrem com freqüência”, justifica Sandra.

Segundo o delegado Cezário, que faz parte da Associação de Delegados Policiais de São Paulo, até o momento, nenhum associado foi questionado sobre o assunto, por isso, a associação não tem um posicionamento formado.

“A Associação de Delegados Policiais de São Paulo não questionou nenhum de seus associados a respeito do referendo ou para opinar se são contra ou a favor da proibição da venda de armas. Mas, pelo que conheço, os delegados de polícia, pelo contato diário que tenho, acredito que o percentual vai ser muito grande contra a venda de arma de fogo”, comenta Cezário.

Ele criticou uma matéria e um editorial publicado que continha a opinião do delegado Wladimir Reale, presidente da Associação dos Delegados de Polícia do Brasil (Adepol), quando os veículos de comunicação colocaram a opinião dele como sendo a da Adepol. “Li um editorial esses dias, no qual o presidente da Adepol emite a sua opinião e ela é colocada como a opinião da associação. Certamente, ele pode defender a própria idéia, faz parte dos interesses dele. Mas, a Associação de Delegados do Brasil, da qual meu irmão foi presidente por dois anos, ainda não colocou a opinião dos associados. Acho que uma pessoa não pode falar em nome da associação”, adverte o delegado Cezário.

O delegado Wladimir Reale é contra a proibição da venda de armas. Ele acredita que se for proibida a compra e venda legal de armas haverá aumento do contrabando e a violência não vai cair. Além disso, ele repudia os R$ 700 milhões que serão investidos no referendo, quase três vezes mais do que o orçamento real deste ano da Secretaria Nacional de Segurança.

Mas, Reale deixa claro que não é contra a consulta popular em si, mas, contra os possíveis efeitos que ela pode causar, além de custar caro.

“A mídia e as pessoas que têm interesse financeiro neste referendo, estão em busca das pessoas com nome importante na área, para mostrar à população”, desabafa Cezário. Criminalidade

O delegado seccional enfoca que a arma aumenta a criminalidade e que do total de crimes cometidos à mão armada no país, 90% são realizados com armas fabricadas no Brasil. “Percebemos, no nosso dia-a-dia, que a arma não traz benefício nenhum, ela aumenta a criminalidade. Flagramos diariamente pessoas com porte de arma ilegal, pessoas que andam armadas e são uma ameaça para a população".

"Queremos que a campanha seja positiva, mas é difícil você querer que ela dê certo nos confins do Brasil, em algumas áreas do Nordeste e do Mato Grosso, lugares aonde a campanha não chega com a mesma intensidade", enfatiza o delegado.

Ele acrescenta que nos crimes de roubo à mão armada e homicídio, mais de 90%, são feitos com o uso de armas fabricadas no Brasil. "Armas que são, no primeiro momento, vendidas de forma legal e que depois o dono, em uma dificuldade financeira, acaba vendendo para outra pessoa que muitas vezes não tem a mesma boa índole que ele. Sou radicalmente contra o porte de arma de fogo por pessoas que não têm nenhuma capacidade. Só defende a causa aquelas pessoas que vão perder dinheiro com isso, como os instrutores de tiros, lojas que vendem armas”, justifica.

A pesquisa do Ibope, realizada com 2,2 mil eleitores em 143 municípios do Brasil, aponta apoio dos entrevistados à proibição do comércio e posse de armas de fogo.

A população vai às urnas em 23 de outubro para decidir se a venda passa a ser proibida ou não. A pesquisa foi realizada entre os dias 14 e 18 de julho e mostra que 81% é contra a venda de armas no território nacional. A favor do comércio estão 17%. Dos que são favoráveis, 23% do total é constituído de homens.



Destaques:

Reportagens recentes:

Todas as reportagens

Reproduzir o conteúdo do site da Uniara é permitido, contanto que seja citada a fonte. Se você tiver problemas para visualizar ou encontrar informações, entre em contato conosco.
Uniara - Universidade de Araraquara / Rua Carlos Gomes, 1338, Centro / Araraquara-SP / CEP 14801-340 / 16 3301.7100 (Geral) / 0800 55 65 88 (Vestibular)
N /ageuniara/