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Araraquarense percorre América do Sul a bordo de carro antigo

Por: RODRIGO FERREIRA SALLUN

24/04/2013

Rodar 13 mil quilômetros de carro percorrendo cinco países da América do Sul em pouco mais de uma mês já é um desafio para poucos. Agora, imagine o grau de dificuldade de tal desafio a bordo de um VW Brasília, ano 1978, praticamente original de fábrica, sem alterações mecânicas significativas e, para dificultar ainda mais, percorrendo todo o desafio a sós, sem ninguém mais além do próprio aventureiro a bordo.

Pois bem, o agente de viagens e turismólogo araraquarense Ney dos Santos Mello Júnior,de 32 anos, planejou por quase um ano a aventura e conseguiu conhecer Bolívia, Peru, Chile, Argentina e Paraguai a bordo de seu veículo antigo.

Levando uma bicicleta no bagageiro, algumas peças sobressalentes no porta malas e muita coragem e vontade de desbravar o Cone Sul, ele percorreu a “maratona” a bordo de seu “velhoster” (assim batizado carinhosamente por ele) e voltou com muita história pra contar.

A escolha do veículo

Apesar de parecer uma escolha insensata, o agente de viagem fez um estudo criterioso a respeito da aventura e, após cogitar alguns outros veículos, chegou a conclusão de que nem mesmo um SUV (utilitário esportivo) dos mais robustos seria tão bom quanto o veículo da VW, pois segundo ele: “O nível de dificuldade do roteiro era imenso e uma eventual avaria mecânica seria praticamente inevitável. Dessa forma, um carro novo, com tecnologia embarcada, provavelmente me deixaria na mão, pois muitos locais visitados não têm infraestrutura com revendas autorizadas. Porém, a mecânica Volkswagen além de robusta, é bastante confiável e muito difundida e cultuada em toda América do Sul, além de ser relativamente fácil encontrar peças de reposição, mesmo nos dias de hoje”.

Dica de pilotagem

Mello Jr. orienta com propriedade: “ A Brasília tem um jeito certo para dirigir. Como é refrigerada a ar através de radiador de óleo, ela necessita estar sempre em rotação adequada na faixa dos três mil Rotações por Minuto(RPM) para que o motor atinja a refrigeração correta. Portanto, quem dirige veículo refrigerado a ar com pouco giro no motor, corre o risco de ficar na mão por motivo de superaquecimento”, explica.

Esse é um dos motivos pelos quais alguns Volkswagens com refrigeração a ar pegavam fogo de forma recorrente. Mello Jr. também afirma que para evitar incêndio é fundamental que todas as mangueiras sejam supervisionadas e devidamente fixadas, pois jamais devem ficar próximas do cano de descarga.

Carro que se comporta de forma fantástica

O veículo foi muito pouco alterado para a viagem, ganhando um bom GPS e um conta-giros para monitorar a correta rotação do motor. Foram colocados também pneus radiais de banda larga e perfil alto com rodas de aro 15 polegadas no eixo traseiro (esta pequena alteração mudou a relação da transmissão, deixando o veículo mais rápido na estrada) e, finalmente, a suspensão teve sua frente um pouco levantada para aumentar o chamado ângulo de ataque, e assim evitar batidas da frente do carro em buracos e depressões. E foi só. De resto, a Brasília se manteve nos padrões originais, inclusive com o velho gerador de energia e o defasado, porém confiável, platinado. “Optei pelo platinado e pelo gerador porque em caso de manutenção, eu mesmo conseguiria resolver rapidamente eventual avaria. Se tivesse instalado ignição eletrônica e alternador, poderia ter problemas, perder tempo, e até mesmo depender de serviço profissional para sanar eventual defeito”.

Durante os 13 mil quilômetros de estradas mal conservadas, o Volkswagen Brasília teve apenas quatro avarias: cabo de embreagem danificado, bomba de gasolina trocada, mangueira do reservatório do fluido de freio furada e coxim do motor estourado.

Para se ter uma ideia da robustez do carro, das quatro avarias, apenas uma (bomba de gasolina) fez o veículo parar. Nas outras três, seria possível ainda rodar mais algumas centenas de quilômetros mesmo com as peças danificadas, acaso fosse extremamente necessário.

Quando perguntado sobre a confiabilidade do veículo, Mello Jr. é categórico: “ O carro é fantástico. Uma verdadeira obra prima do pessoal da engenharia da VW”.

Assumindo riscos

“As estradas bolivianas são péssimas, muito ruins mesmo. Em alguns momentos me perdi. Algumas vezes não dava para saber se estava num trecho da estrada ou em trecho de propriedade particular”, destaca o aventureiro. Além de se perder na Bolívia, Mello Jr. enfrentou a estrada da morte entre La Paz e Coroico.

"De Corumbá até Santa Cruz de La Sierra fiquei com muito medo, pois a estrada é rota de tráfico de drogas. Até o consulado orientou-me a não utilizar a estrada porque o risco de assalto é imenso, mas tive que enfrentar os riscos, pois a rota alternativa, via Paraguai, seria ainda mais perigosa. Tomei coragem e saí bem cedinho pela manhã. Para minimizar os riscos viajei os 700km em 12 horas sendo que os poucos 50 quilômetros de terra demoraram três horas devido o alto grau de dificuldade do trajeto. Foi um dia muito tenso, mas graças a Deus deu tudo certo”, completa.

Altitudes

As altitudes extremas também foram um grande problema para o viajante. Em Potosí, próximo ao deserto de sal na Bolívia precisou mascar folha de coca para minimizar as consequências do ar rarefeito, mas se deu mal: “folha de coca é só para mascar e cuspir. Não se pode engolir porque, se engolir, vira laxante. Acabei engolindo e meus intestinos reclamaram bastante”, declara rindo e fazendo piadas.

No deserto do Atacama, no Chile, os incríveis cinco mil metros de altitude foram ainda mais assustadores: “Minha visão ficou escura. Em alguns momentos pensei que ía apagar ao volante”, relembra.

O blog

Mello Jr. fez um blog bastante minucioso, onde relata todos os acontecimentos da viagem, mais ou menos como um diário de bordo sobre a aventura. No blog é possível ver belas fotos de diversos lugares que conheceu nos seis países visitados, e conhecer dezenas de histórias tanto sobre os lugares históricos e seus habitantes, como sobre a forma que o valente veículo antigo se comportou. Anote o endereço: www.neyjunior52.wix.com/rap

Um significado espiritual

Ao ser perguntado sobre o que significou essa viagem, a resposta foi praticamente idêntica ao texto colocado no início do blog: “O fato de viajar sozinho, me fez conhecer melhor a mim mesmo e os meus limites e sentir fortemente uma presença maior. Senti a presença de Deus. Ele[Deus] esteve sempre ao meu lado. Senti o quanto me ama. Senti sua proteção a cada minuto. Nada deu errado. Percebi que todos os problemas tiveram um propósito. Vivi anos da minha vida em um único mês. Agradeço a Deus por tudo. Agradeço a todos que torceram por mim e me ajudaram. E, sobre a Brasília, nem preciso falar nada: o carro é espetacular e vai fazer muita gente mudar seus conceitos”, finaliza.



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