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Cantora da era do rádio reclama da antipatia dos artistas atuais

Por: RENATO DIEGO ALVES DE JESUS

22/05/2009

(Continuação da reportagem)

Nesse momento, Maura já havia se encaminhado para o quarto, seguida por mim, para mostrar suas pastas com letras de música. Inúmeras, que dizia saber cantar quase inteiramente. A cópia de sua criação, única, permaneceu com ela, mas cantou-a com seu tom de voz decidido e frágil ao mesmo tempo. A afinação é ótima. Essa cena iria se repetir várias vezes durante o encontro – cada vez com uma música diferente.

Com o crescimento natural, a saúde da jovem amante de música tornou-se mais forte. Apesar disso, encarou a perda de sua mãe aos 10 anos de idade e conta que isso a deixou desmotivada. Diversas adversidades fizeram com que Maura se afastasse da música durante sua juventude, mas as apresentações em bailes e festas voltariam a ser freqüentes depois de alguns anos. Esse ambiente festivo era aquele com que a artista mais se identificava. Além do canto, relata que era uma ótima dançarina e divertia-se com o samba e o tango, já tradicionais naquela época.

Em alguns momentos, o público era escasso e não havia espaço para que pudesse mostrar o que faz, mas explica que o prazer de cantar não era diminuído por esse fator. Fã de Clara Nunes e Dalva de Oliveira, diz que ambas eram completas – belas, com lindas vozes e que sabiam dançar.

Quando questionada sobre o que mudou no cenário musical, em sua opinião, ela não tem dúvidas: “A música antes era levada mais a sério e os artistas eram menos antipáticos”.

Maura sente saudades do estilo de vida simples do começo de sua vida e nunca viveu apenas de sua música. Saiu de sua cidade natal para trabalhar em hospitais de Ibitinga por um curto período. Acabou encontrando oportunidades maiores de emprego em Araraquara, na maternidade Beneficência Portuguesa e na Gota de Leite. Nesse ambiente, teve contato com outra de suas maiores paixões na vida – as crianças. Tomar conta delas em berçários de hospitais remetia à época em que cuidava dos filhos de suas outras irmãs, quando residia em Tabatinga.

Esses processos marcariam o início de anos em que Maura se dedicaria mais à medicina do que à sua vida de cantora. Ao invés do público de festivais, a enfermeira cantaria para os pacientes das instituições, entre um afazer e outro. Comunicativa, ajustava-se facilmente a vários ambientes e tinha uma proximidade com os internos que cativava a todos. Cantava canções de ninar aos bebês e garante que a música é uma ótima terapia para os recém nascidos, mas nem todos sabem disso.

Mesmo com o tato apurado para cuidar de crianças, Maura nunca teve filhos e nem se casou. Alega nunca ter esquecido seu primeiro namorado, veterano de guerra cujo nome ela não revela. Antes da convocação dele para integrar a Força Expedicionária Brasileira que lutou na Itália durante a 2ª Guerra Mundial, a artista despediu-se do namorado e cantou-lhe uma canção, às lágrimas. Anos depois, ele retornaria e se comprometeria com outra mulher.

Houve chances para que pudesse se casar durante sua vida adulta, mas negou todas, decepcionada com sua própria experiência e com os conflitos de relacionamentos amorosos vivenciados por seu pai. Ele, inclusive, viria a falecer tempos depois, com Maura já crescida. “Aquele sim, foi um verdadeiro pai. A coisa mais linda de minha vida inteira”, conta.

Ao falar de assuntos mais pessoais e relacionados a aqueles que amou em sua vida, Maura torna-se mais emotiva, sensível. Seu tom é permeado de uma certa melancolia, mas sempre firme. Concluo que essa dualidade é uma característica própria da entrevistada e não somente algo que aparece nas circunstâncias. Seu relato é cheio de carinho, mas com uma nostalgia positiva e não triste, como possuem algumas pessoas.

Após presidir um parto bem sucedido, foi enviada para São Paulo pelos responsáveis da Gota de Leite para um curso de formação de parteiras. Trabalhou no Hospital das Clínicas, onde fez contatos com médicos prestigiados. Diz que essa fase na Capital ajudou-a muito, de diversas maneiras. Retornou a Araraquara anos depois e trabalhou em casas luxuosas da cidade, cuidando de enfermos e também como governanta. Considerava seus patrões como sendo seus familiares e nutria um grande respeito por todos eles, procurando ajuda-los sempre que preciso.

A artista sempre teve a ambição de sentir-se útil para as pessoas e ingressou na Vila Vicentina por razões como essa. Depois de anos trabalhando em residências, viu que poderia oferecer suas habilidades em troca de moradia. Além de cuidar dos idosos, também teve a oportunidade de voltar a mostrar seus dotes artísticos em eventos da cidade. Lembra-se com muito bom humor das suas apresentações, caracterizada como Mazzaropi, em asilos de Araraquara e das diversas apresentações em datas comemorativas no Colégio Progresso.

No início, cuidava dos idosos da Vila, e anos depois, acabou tornando-se uma de suas internas. É figura conhecida em festas do local. Hoje, com a saúde debilitada, diz que gostaria de ter desenvolvido sua carreira artística de forma mais ampla, mas nunca teve o tempo necessário para isso e que agora já não é mais possível, graças a essas fragilidades e à idade avançada. “Nunca ganhei prêmios ou participei de concursos”, justifica. “Eu devia ter sido uma artista profissional!”.

Dona Maura diz que teve uma vida dura, mas cheia de paixão pelas pessoas e pela música, que foi um alicerce muito sólido em várias fases de sua jornada. “Cantar é uma paixão que supera muitos males”, diz, trazendo de volta a essência da menina febril que compunha sua primeira canção sob a luz de um lampião em seu quarto. Com a sabedoria de quem já passou por experiências diversas e aprendeu a coletar o melhor de cada uma delas, aconselha: “Trabalhe, viva bem e ajude quem puder, sempre. Caminhe de cabeça erguida e faça tudo com amor. A vida é linda, só precisa saber por onde anda.”

Depois de mais de uma hora de conversa, penso que já é o suficiente e que mais do que isso seria abusar de sua vontade. Dona Maura diz que espera ter auxiliado de alguma maneira. Parece feliz, bem mais leve do que no início do encontro. Despeço-me dela com um abraço e ela me deseja boa sorte. Transmite confiança. Um senhor de idade avançada sentado numa cadeira se despede de mim e aperta minha mão no pátio principal, mesmo sem me conhecer. No caminho de volta, enquanto checo a gravação em aúdio, passo em frente a uma creche, onde as crianças brincam agitadas, com a voz da artista nos meus ouvidos. Penso que essa é a trilha sonora certa para a cena que vejo. Maura gostaria de cantar para elas. Ela iria gostar de estar ali. Pareceu apropriado.

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