Ageuniara

Birra na infância pode causar problemas na vida adulta

Por: MICHEL DA SILVA COELHO LACOMBE

13/10/2008

Cena comum em qualquer cidade e lugar: uma criança chora convulsivamente. E grita, quando não se joga no chão. Ao seu lado, o pai ou a mãe, abaixam a cabeça, constrangidos com a cena causada pelo filho. O motivo da situação: algum desejo dele não foi atendido.

A esse comportamento dá-se o nome de birra. “Em geral, as crianças utilizam os recursos possíveis para serem atendidas. O choro é uma forma de comunicação primária e bastante efetiva para serem prontamente atendidas, pois os adultos nem sempre respondem imediatamente a uma solicitação verbal, mas é bem mais rápida a resposta ao choro por causar incômodo e constrangimento em público”, diz a psicóloga Silmary Bertolani.

Ela afirma que ao contrário do que se pensava há décadas atrás, uma criança possui o discernimento do que acontece ao seu redor. “Elas aprendem facilmente que chorando acabam conseguindo algum tipo de atenção dos pais ou efetivamente aquilo que solicitam. Isso favorece a manutenção deste comportamento de birra, pois sempre que a criança é contrariada de alguma forma começa a chorar até ser atendida”.

A psicóloga aponta que os principais responsáveis pela birra das crianças são os pais. “Eles devem procurar se preparar para educar os filhos da melhor maneira possível, sempre atentos a corrigir os comportamentos inadequados e valorizar a criança em suas melhores atitudes e potencialidades”, comenta. “Eles também devem orientar demais cuidadores da criança (avós, tios, babás) sobre os valores que preferem passar à criança e formas de educar dentro dos padrões valorizados pela família e pelo grupo que pertencem”, acrescenta a psicóloga.

Esse comportamento infantil, quando não é tratado, traz problemas na vida adulta. “A falta de disciplina e limites bem definidos na infância podem favorecer muitos problemas graves no desenvolvimento da pessoa. A criança sem limites pode se tornar um adolescente com valores morais pouco estruturados e dificilmente aprendem a ser empáticos, respeitam pouco as outras pessoas, sendo bem inconseqüentes. Assim, correm maior risco de se envolverem em situações de violência, abuso de drogas, comportamentos delinqüentes, com desrespeito a tudo e todos”.

Outro ponto apontado por Silmary é que a criança que teve birra, quando chega à vida adulta, pode desenvolver menos competências e habilidades para se relacionar com outras pessoas, bem como aumentar a ansiedade e ter uma auto-imagem negativa. “Assim, sempre que não conseguem aquilo que desejam podem apresentar comportamentos de birra (agora com gritos ou agressões) ou mesmo responsabilizarem os outros por seus insucessos”.

Atitudes

Silmary afirma que agressões físicas ou verbais não devem ser utilizadas para inibir a birra infantil.“Geralmente, os pais reagem com raiva neste momento, acabam agredindo e humilhando a criança, assim aprende que ela quem é a errada e não o comportamento que se quer modificar (o de birra).Com isso a criança não se sente em condições de se modificar, pode assimilar valores que é uma pessoa ruim, com menos valia, ao longo do tempo isto pode diminuir sua auto-estima e favorece a insegurança. Além de, também, favorecer que a criança mantenha este padrão agressivo no decorrer de sua vida”.

“Recomendo aos pais, inicialmente, olharem diretamente à criança,com seriedade, e dizer que ela deve falar sem chorar. Se a criança continua gritando e chorando, o pai (ou mãe) deve retirá-la do local, sem dirigir a palavra para a criança, até estarem num lugar sozinhos onde deve falar seriamente que aquele comportamento é inadequado, que aquilo que a criança quer não é possível naquele momento e daquela forma, sem se alongar muito, manter-se sério. Se estiverem em casa, deixar a criança por um tempo sozinha num lugar seguro e se estiverem em lugar público, retirarem-se efetivamente”, aconselha Silmary.

A psicóloga também faz outro alerta aos pais. “É preciso muito cuidado para não se deixar levar por um escândalo da criança e ao final fazer o que ela queria inicialmente para evitar o choro ou que coloque os pais em situação constrangedora em público. Pois sempre que a criança consegue o que quer depois de uma birra, numa próxima vez ela se comportará desta mesma maneira para ser pronta e rapidamente atendida”, observa a psicóloga.

“É essencial que os pais dêem exemplos consistentes às crianças pois elas aprendem muito mais com a observação dos comportamentos apresentados pelos adultos do que simplesmente pelo que ouvem. De nada adianta fazer uma série de considerações e sermões se os pais agem de maneira totalmente diferente”,finaliza.



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