Ageuniara

Candidatos vendem imagem durante o horário político

Por: MICHEL DA SILVA COELHO LACOMBE

30/04/2008

Em tempos de campanha eleitoral, como a que se aproxima –para a eleição de vereadores e prefeitos –, mais do que explorar as idéias, os políticos usam outras táticas para conquistar a simpatia do público e, conseqüentemente, o cargo almejado.

Uma pesquisa que está sendo desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Lingüística da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar),busca analisar o que é feito e como isso atinge o público durante o horário eleitoral gratuito.

O trabalho é realizado em nível de Mestrado pela pesquisadora Luciana Carmona Garcia e tem a orientação da professora doutora Vanice Maria Oliveira Sargentini. Além disso, a pesquisa conta com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

“Alguns pontos centrais nesse trabalho devem ser divulgados à sociedade, com vistas a auxiliar o espectador a analisar o que assiste. O trabalho da Luciana parte da observação de que a lógica da comunicação comercial passa para a campanha política",aponta Vanice.

"A princípio a propaganda política tende a privilegiar a dramatização e a pedagogia, entretanto, na atualidade, ela se apresenta com as características da propaganda comercial que tem por fim seduzir as massas.A pesquisa contribui para a sociedade,descreve e analisa essas estratégias de construção do discurso político” completa.

Apesar de focado na eleição presidencial de 2006, vencida por Luis Inácio Lula da Silva (PT), e que teve como outros participantes Geraldo Alckmin (PSDB), Cristóvam Buarque (PDT) e Heloísa Helena (PSOL), ela traz informações importantes para serem utilizadas em qualquer pleito. O método de investigação realizado pela pesquisadora se baseia em conceitos que dão suporte à Análise do Discurso.

“A Análise do Discurso busca averiguar o funcionamento das práticas discursivas que circulam na sociedade, e quais os sentidos que emergem dessas práticas. No caso do discurso político, buscamos entender por que o descrédito do público eleitor à fala do político em campanha (por que o discurso não convence?) e quais as estratégias que são mobilizadas pelas equipes de apoio para que o discurso do candidato consiga afastá-lo da pecha de mentiroso e/ou corrupto”, afirma Luciana.

O ponto central da pesquisa é que os candidatos não aparecem, durante o horário eleitoral, como uma pessoa, mas sim como um produto pronto a consumo.Prova disso é que para um candidato se eleger precisa não apenas de um bom projeto de governo, mas sim de um publicitário, conhecido pelo termo de "marqueteiro".

“É preciso sempre ponderar o que se pode dizer em função de onde esse dizer irá circular. Ocorre que, submetidos ao inconsciente, nem sempre temos o domínio do dizer (e acho que é por isso que os namorados brigam...). O discurso político, em especial o discurso político televisivo, procura ao máximo controlar esse dizer e para isso usa formas que atendam aos novos modos de circulação do discurso político”, comenta a orientadora.

As eleições de 2006

Dividida em dois pólos – Lula e Alckmin de um lado e Heloísa e Cristóvam de outro – as eleições presidenciais de 2006 apresentam pontos comuns.“Os dois candidatos [Lula e Alckmin] mobilizavam categorias semelhantes como a suavização da imagem facial, com sorrisos, buscando constituir-se como candidatos carismáticos, o que inclui a aproximação com o povo - principalmente com as crianças. Além disso, como o candidato Lula já havia ocupado o cargo, trazia em seu discurso o que de bom havia sido feito durante sua gestão (o que tinha maior alcance ao eleitorado brasileiro). Por outro lado, Alckmin utilizava-se da mesma estratégia, em relação ao governo do Estado. Porém, como o alcance era menor, o discurso sobre obras e melhorias era mais insistente”, observa a pesquisadora.

“Com a diferença de que o tempo de exposição dos candidatos [Heloísa e Cristóvam] era menor, o que se nota é a mesma mobilização de estratégias semelhantes. Porém, com menores aparatos de suporte tecnológico e financeiro, o que diminui a carga de ‘dramaticidade’ explorada pelos candidatos alçados ao segundo turno”.

No entanto, a finalidade dessa pesquisa não é apenas ficar restrita ao meio acadêmico. Devido às análises realizadas, pontos dela devem ser divulgados, como também servirem de base para a população observar o candidato.

“Acredito que é preciso ter um olhar mais crítico com relação ao horário gratuito, e entender que essa ferramenta de circulação de discurso pretende divulgar a "imagem" do candidato. Esse olhar crítico não deve ser aquele de incredulidade, que traz máximas como "político é tudo igual", mas sim, a busca por compreender que é preciso que o candidato "se mostre" ao público para que o eleitor possa procurar mais fontes de informação - como o documento que estabelece o programa de governo, além do histórico político do candidato - para que possa estar convicto na hora do voto”, finaliza Luciana.



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