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Pesquisa revela que queimadas causam danos à saúde

Por: MAIKO DA CUNHA MAGALHÃES

08/04/2005

Nos últimos anos, as queimadas nas plantações de cana-de-açúcar, lançam no ar substâncias que podem originar sérias conseqüências para a saúde da população, em especial para os trabalhadores envolvidos nesse processo. Esse é o resultado de uma pesquisa da Universidade Estadual Paulista(Unesp).

A prática da queimada é bastante comum na colheita dessa cultura no Estado de São Paulo, o maior produtor do país, com 60% da safra nacional, em que a região de Araraquara(SP) é responsável por 10% dessa produção.

Duas pesquisas recentemente concluídas por equipes dos campi de Araraquara e São José do Rio Preto(SP) apontam para os riscos da liberação de hidrocarbonetos policíclicos aromáticos – os HPAs, através das chamas que atingem os canaviais.

Investigações internacionais comprovaram que 16 variedades dessas substâncias têm um comprovado potencial mutagênico (mutação genética), que podem levar ao aparecimento de câncer.

O trabalho coordenado pela docente do Instituto de Química (IQ) da UNESP, campus de Araraquara, Mary Rosa Marchi, detectou um grande volume desses hidrocarbonetos em amostras de poeira em suspensão no ar do município, no período das queimadas.

O grupo de Mary detectou as substâncias por meio de equipamento apropriado para a coleta de partículas inaláveis com diâmetro menor do que 10 microns (unidade de medida que equivale à milionésima parte do metro).

O sistema foi instalado a uma altura de cerca de 7 metros do solo, no terreno do Instituto de Química de Araraquara, situado a aproximadamente 5 quilômetros dos canaviais e a 10 quilômetros do centro da cidade.

Foram colhidas 40 amostras durante duas safras de cana-de-açúcar do período maio-novembro e duas entressafras, entre dezembro e abril, abrangendo os anos de 2002 a 2004.

A concentração da poeira inalável foi medida em microgramas (μ-unidade correspondente a 1 milionésimo de grama) por metro cúbico de ar (m3). Foi detectada a média de 82,1 μ/m3 de ar na safra, volume quatro vezes maior do que na entressafra (20,5 μ/m3), embora ainda esteja dentro dos critérios estabelecidos pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) para a qualidade do ar, que prevêem uma concentração máxima de 150 μ/m3 num período de 24 horas, que não pode ser excedida mais de uma vez por ano.

A pesquisa inclui ainda análises e ensaios de laboratório, como o teste de mutagenicidade – para avaliar as mudanças que os produtos colhidos provocam sobre o material genético –, que no caso utilizaram exemplares da bactéria Salmonella typhimurium.

“A urina dos cortadores de cana foi altamente tóxica para as bactérias utilizadas no teste, acabando por matá-las”, completa a pesquisadora.

Nos testes com as bactérias, o material colhido durante a safra apresentou em média potencial mutagênico até 10 vezes maior do que o da entressafra. “No entanto, a avaliação mais precisa da dimensão do risco que essas conclusões podem representar para a saúde humana, incluindo o câncer, ainda demanda estudos mais detalhados e multidisciplinares, envolvendo pesquisadores das áreas de Química, Biologia e Saúde”, ressalva a pesquisadora.

As áreas do corpo humano potencialmente mais afetadas pela inalação das partículas e HPAs são a boca, o aparelho respiratório e digestivo.

A transpiração, provocada pelo calor no local da queimada, e roupas, que são consideradas inadequadas para essa atividade, acentuam a intensidade da exposição.

No Brasil, segundo a pesquisadora Mary Rosa Marchi, não há ainda uma legislação específica, nem estadual ou federal, de controle da emissão das substâncias consideradas cancerígenas.

Ela ressalta ainda que há uma lei de proibição escalonada, quanto às queimadas, ou seja, que vai proibindo esse processo gradativamente. “Os poliaromáticos não aparecem nas legislações ambientais de âmbito estadual e federal para controle da qualidade do ar”, diz a especialista.

Para a pesquisadora, o estudo ainda não terminou, pois ele agora vai passar por um novo processo, que é a avaliação da exposição dos trabalhadores a fuligem.

“Essa pesquisa é o resultado de quatro anos de muito trabalho, onde encontramos muitas dificuldades para realizá-la, como o processo de coleta das fuligens. Agora vamos desenvolvê-la mais detalhamente”, completou ela.



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