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Ditadura completa 40 anos

Por: TIAGO ROBERTO GUIDELLI

22/04/2004

Há quarenta anos, no dia 15 de abril de 1964,o general Humberto de Alencar Castelo Branco tomou posse para assumir a presidência do Brasil, dando início à ditadura militar que durou 21 anos.

O Brasil vivia um momento de crise. O Presidente João Goulart (Jango) contava com o apoio dos operários, estudantes e camponeses.

A intenção era dar início às reformas políticas e institucionais de cunho nacionalista. Essas eram chamadas "reformas de base".

As reformas não satisfaziam a classe burguesa que apoiada pelos Estados Unidos e liderada por uma parte da Igreja Católica, a oficialidade militar, os partidos de oposição, liderados pela União Democrática Nacional (UDN) e pelo Partido Social Democrático (PSD), denunciaram uma preparação de um golpe comunista, com a participação do presidente.

Ao perceber que o governo estava com dificuldades, Jango promove um comício em frente da estação ferroviária Central do Brasil, no Rio de Janeiro, em favor das reformas de base.

Os conservadores reagem com manifestações em São Paulo. "A Marcha da Família com Deus pela Liberdade", em 19 de março.

No dia 31 de março, tropas saídas de Minas Gerais e São Paulo avançam sobre o Rio de Janeiro, onde o governo federal conta com o apoio de setores importantes da oficialidade e das Forças Armadas.

Para evitar a guerra civil, Goulart abandona o país e refugia-se no Uruguai. Antes da posse de Castelo Branco, o Brasil é dirigido por comandantes militares que decreta o Ato Institucional número 1 (AI-1), que cassa mandatos e suspende a imunidade parlamentar, a vitaliciedade dos magistrados, a estabilidade dos funcionários públicos e outros direitos constitucionais.

Esse período da ditadura é marcado pelos atos institucionais, sendo que o de maior expressão foi o AI- 5 que restabelece o poder presidencial de cassar mandatos, suspender direitos políticos, demitir e aposentar juízes e funcionários, acaba com a garantia do habeas-corpus, amplia e endurece a repressão policial e militar.

Estes 21 anos de ditadura são marcados por forte repressão, e não é sentida apenas nas grandes cidades onde tinha maior resistência da população, mas o interior de São Paulo e de todos os outros estados.

Em Araraquara(SP) haviam muitas pessoas reacionárias que apoiavam João Goulart, e outros que apoiavam a sua deposição.

Olinda Montanari,por exemplo, que hoje tem 80 anos foi uma das primeiras mulheres a ser suplente de vereadora da ala de esquerda na cidade e comenta que a chegada de um cônego chamado Aldomir Storniollo impulsionou os movimentos contra Jango.

Storniollo falava numa rádio que pertencia a família Lupo, uma das mais tradicionais de Araraquara e fazia passeatas tentando mobilizar a comunidade, dizendo que os estudantes eram subversores, o comunismo ia acabar com as famílias, e com isso a população ia sendo moldada ideologicamente.

"A nossa sorte é que havia um delegado na cidade que tinha bom senso e não acreditava em tudo que o cônego falava", comenta Olinda.

Por não ser a favor da ditadura o cônego conseguiu expulsar o delegado da cidade, mas depois voltou.

Haviam poucos comunistas na cidade, mas à vontade de prender quem não era a favor da ditadura levava o padre a criar rótulos em pessoas comuns.

"Alguns operários da Ferrovia Araraquara (FA), foram presos por fazerem greve, com a desculpa de serem comunistas", salienta Olinda.

Araraquara mesmo não sendo um grande palco para a ação dos ditadores, foi a primeira cidade depois de São Paulo a fazer a "marcha da família com Deus pela liberdade", sendo viabilizada pelo cônego Storniollo.

A cidade perdeu duas pessoas, em conseqüência da ditadura. Um é José Arantes que fugiu do Brasil indo para o Chile, depois voltou entrando clandestinamente no país, mas a polícia descobriu e o matou.

O outro caso foi da enfermeira Luiza Augusta Garlippe (Tuta) que desapareceu na Guerrilha do Araguaia em 1974.

Segundo dona Olinda, as pessoas tinham medo da ditadura.

Muitos que eram seus amigos perderam a amizade, pois ela aderia a ala esquerda. "De um dia pro outro fiquei invisível, meus amigos fingiam não me conhecer e trocavam de calçada quando me viam", ironiza Olinda.

Os movimentos de procura aos comunistas eram constantes e as casas eram invadidas de madrugada para pegar as pessoas de surpresa. Em qualquer atitude suspeita eram levados para a delegacia para dar depoimento.

Nesta época os prefeitos eram nomeados pelo presidente, sendo sempre do MDB (Movimento Democrático Brasileiro) ou Arena (Aliança Renovadora Nacional), pois os outros partidos políticos continuaram, mas de forma clandestina, afinal o governo só permitia a existência dos dois.

O professor Wando Carnesseca morador de Araraquara lembra que em 1976, estudava no terceiro colegial quando, juntamente, com um grupo de estudantes lançaram um jornal com notícias da ditadura, mas foram perseguidos pela diretora da escola.

Em 1978, ele fazia Engenharia de Materiais na Universidade Federal de São Carlos ( UFSCar). Era membro da União Nacional dos Estudantes (UNE) que depois do golpe foi colocada na ilegalidade, e presidente do diretório acadêmico de uma organização clandestina de esquerda trotskista.

Nesta época aconteceu a sua primeira prisão, quando estava em frente a uma universidade particular em São Carlos(SP), com um outro amigo fazendo uma eleição para a disputa de um diretório acadêmico, quando parou um carro com dois homens e pediu a urna e na negação foram presos.

"Fomos eu, meu amigo e a urna para a delegacia", lembra Wando.

Em 1981, aconteceu mais duas prisões. Uma porque fizeram um movimento dentro dos ônibus, pois a meia passagem foi extinta, então pulavam a roleta e incentivavam as outras pessoas a não pagarem a passagem, e a outra foi dentro da sua casa, acusado de fazer alguma conspiração contra a ditadura.

"A ditadura foi um atraso para o país, fez e desfez, errando quase sempre, e ninguém podia ou ousava questioná-la", finaliza Wando

O engenheiro agrônomo Edgar Santa Rosa Esteves, hoje estudante de Jornalismo da Uniara, que em 1973 e 1974 fazia faculdade em Jaboticabal(SP), relata que sempre se destinava para São Paulo, visitar a namorada e aproveitava para participar de passeatas contra a ditadura.

"Muitas vezes fui convidado a dar aula clandestinamente para os metalúrgicos", diz.

Esteves comenta que quando a PUC foi invadida ele estava em São Paulo, mas quando chegou lá já tinha acabado.

Neste dia uma menina foi incendiada pelos lança chama da Polícia que nesta época era comandada por Erasmo Dias, um dos grandes lideres da censura no Brasil.

"O que me marcou foi um Show de Chico Buarque chamado gota dagua, que mesmo sendo vigiado, as letras usadas por Chico mostravam o sofrimento de forma velada. Essa era uma forma de enganar os censores", conclui Esteves.

Outro fato a ser lembrado por Esteves foi quando em sua cidade natal, Santa Rosa do Viterbo(SP), alguns amigos saíram de uma festa e quebraram uma placa de trânsito.

O delegado da cidade estava procurando quem tinha quebrado a placa e ameaçava enviar o nome para Brasília(DF), aos cuidados do DOPS."O delegado passou a tratar casos corriqueiros como casos nacionais envolvendo a ditadura", comenta Esteves



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